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A motricidade humana

 

Uma das aptidões mais automáticas do organismo humano é a motricidade. Permite o movimento, a deslocação, a ação… e grande parte acontece sem que seja necessária uma intenção consciente. Quase toda a nossa motricidade é autónoma e automática, libertando-nos dessa responsabilidade e permitindo-nos dedicar-nos a aspetos que exigem uma maior acuidade.

. A seleção natural favoreceu esta vantagem adaptativa, uma vez que, para sobreviver, o ser humano teve de adotar comportamentos, planear atividades, antever consequências e colocar em prática estratégias de ação que não eram – e não são – compatíveis com uma motricidade que exigisse a nossa atenção.

A este propósito, dada a especialização e complexidade do nosso cérebro,  e porque o esforço para a sobrevivência, na nossa espécie, resultou nessa complexidade,  ficámos equipados com a aptidão de desenvolver tarefas em simultâneo – multitarefa – e conseguimos fazê-lo com tanta eficácia e rapidez que raramente temos consciência de que o estamos a fazer. Como? Quando? Quando estamos a ler este artigo ou estamos a escrever este artigo e, em simultâneo, a pensar no que escrever, no que vamos almoçar e naquilo que ainda falta fazer depois de o terminar de escrever. E ainda melhor… E com imagens em simultâneo, que vão ajudando a criar as prioridades. A nossa mente multitarefa fá-lo a uma rapidez estonteante. Vou dar uma ajuda: enquanto lê as palavras que irá ler a seguir, procure as imagem a que corresponde a palavra. Ora vamos lá: carro; casa; bola; praia. Conseguiu? Agora ainda mais impressionante: enquanto lê as palavras que irá ler a seguir, procure as imagens da sua vida a que corresponde a palavra. O seu carro; a sua casa, a sua bola; a sua praia. Mais impressionante? Enquanto lê as palavras que irá ler a seguir, procure as imagens da sua vida a que corresponde a palavra e suba umas escadas. O seu carro e um degrau; a sua casa e um degrau; a sua bola e um degrau; a sua praia e um degrau. Espetacular. O nosso cérebro consegue levar a cabo multitarefas impressionantes. Mas, por vezes, e às vezes mais vezes do que aquelas que deveriam ocorrer, o cérebro é sobrecarregado e acaba por não conseguir levar nenhuma das tarefas até ao fim… Não nos deveremos preocupar, uma vez que, em vez de crash, o nosso cérebro prefere não resolver tarefa nenhuma até se decidir, de todas as tarefas, quais as prioritárias. E quais são? As que são fundamentais à vida. O nosso cérebro é altamente especializado porque tem como única missão manter-nos vivos.

Ora, para a mobilidade, sendo uma aptidão automática, nós não precisamos de lhe dedicar atenção. Mas, e há sempre um mas, aquando do envelhecimento, o cérebro começa a ter dificuldade para levar a cabo com eficácia as multitarefas. E começa a escolher as prioritárias. As fundamentais. Começamos por não conseguir andar e falar ao mesmo tempo. Começamos a não conseguir escrever e falar ao telefone ao mesmo tempo. E a sobrecarga acontece com muito maior frequência. O que fazer? Nunca desistir. E não desesperar. Continuar a tentar, enfrentar a situação e não contorná-la. Ou seja, não começar a procurar as maneiras mais fáceis de fazer o que se conseguia fazer. Tentar sempre. E quando não se conseguir, então sim, tentar de uma nova maneira. Quando deixamos de exigir do nosso cérebro, ele deixa de nos dar o que nós precisamos. O que não usamos perdemos e as multitarefas perdem-se muito facilmente quando começamos a facilitar. Por isso, quando começa a ficar difícil andar e pensar no caminho a fazer – em simultâneo –, continue a tentar. Porque só perde a mobilidade quem não a utilizar, ou quem começar a utilizar estratégias para evitar a frustração de não ter a mobilidade que costumava ter…. Se tentar, vai ver que é capaz! E vai ver que envelhecer pode ser, como sempre,  com qualidade de vida… e pode continuar a ser feliz!

Texto: Artigo de Nuno Colaço – Happinez, Centro de Excelência para a Psicologia – Publicado em Impulso+ | Publico

Imagem: Unsplash

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