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Apps para monitorizar no lazer? Sim, mas atenção à evidência científica

Com digitalização crescente da sociedade contemporânea, em muitas situações de lazer estamos a recolher informação sobre a nossa vida ou sobre hábitos que sabemos influenciarem a nossa saúde. Isto porque existem milhares de apps que podemos descarregar e nas quais podemos registar muita informação sobre nós e sobre o nosso estilo de vida (idade, peso, altura, atividade física, alimentação, padrões de sono, doenças, estados de espírito, alergias, dor, ciclo menstrual, fertilidade, medicamentos que tomamos, etc.).

 

Através dessas apps – que podemos instalar nos nossos smartphones, tablets ou smartwatches, entre outros dispositivos –, conseguimos monitorizar melhor o nosso corpo e todos os seus “motores” (coração, cérebro, etc.). Quase todos os smartphones trazem instalada uma app que recolhe informação sobre a nossa atividade física. Podem também trazer instaladas apps que permitem registar informação sobre hábitos alimentares, padrões de sono, etc.

Os smartwatches ou dispositivos de fitness, como a Fitbit ou a Jawbone, podem ter sensores que medem os batimentos cardíacos, a temperatura do corpo, o suor, etc. As possibilidades são imensas, quer em termos de dispositivos que podemos usar quer em termos do que podem vir a medir.

Depois, podemos tomar decisões sobre o que fazer com os resultados que aparecem no ecrã. Estas decisões podem ser sugeridas pela própria app: “levante-se e vá andar”, é um exemplo simples. Gostamos de saber que estamos a atingir o nosso objetivo de dar dez mil passos por dia para nos mantermos “saudáveis”.

Já agora, sabia que este objetivo dos dez mil passos por dia foi criado, nos anos 1960, para uma campanha publicitária de um fabricante de pedómetros japonês? Aquele número não foi baseado em qualquer tipo de investigação, apenas soava bem! Mas também não faz mal a ninguém dar dez mil passos dia, não se preocupe.

Apps devem ter validação científica

Esta digitalização crescente da sociedade atual trouxe consigo o fenómeno das notícias falsas. Há muita informação a circular, mas nem tudo o que é dito é verdade. E este é um problema que permeia todas as dimensões da nossa vida. Na área da saúde este fenómeno é ainda mais preocupante pois, muitas vezes, é combinado com o desprezo pela evidência científica, como se observa nos movimentos antivacinação.

Dependendo da app, doença, órgão ou comportamento a ser monitorizado, as sugestões podem ter um conteúdo mais clínico e, desejavelmente, serem baseadas em evidência recolhida através de métodos científicos rigorosos. Contudo, não existe um processo para a validação científica das apps que se encontram disponíveis para utilização. Muitas apps não são testadas nem validadas e podem dar conselhos contrários à melhor prática médica.

Em suma, é importante reconhecer o potencial da tecnologia no contributo que pode dar para o aumento da literacia em saúde. Contudo, tal como acontece em relação às notícias, é preciso olhar para a origem do conteúdo e dizer: não à informação falsa, sim à evidência científica.

 

Texto: Céu Mateus, Universidade de Lancaster e Nova SBE Health Economics and Management Knowledge Center – Artigo publicado no Publico – Impulso+

Imagem: Unsplash

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