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Biblioterapia – A função terapêutica da literatura

A palavra biblioterapia tem origem nas palavras gregas biblion– livro, e therapeia- tratamento. A Biblioterapia assume empiricamente que a literatura, prescrita de forma orientada, é um agente cuidador e pacificador de emoções.

 

Na Biblioterapia, a terapêutica acontece na interceção entre o real e o imaginário, na apropriação do leitor sobre o mundo do outro, ao nível da imaginação, mas com repercussões na realidade. Filosoficamente, o seu fundamento essencial é a “identidade dinâmica”.

O leitor/ouvinte identifica-se com o texto literário através da projeção e ou introjeção, partindo-se do pressuposto que toda a experiencia narrativa é catártica: reduzindo a tensão, provocando alívio e libertando emoções que provocam placidez, cuidando.

Um livro é outro mundo possível que o leitor/ouvinte tem ao seu dispor para aprender e apreender sem experienciar, criando, na interpretação do texto, um diálogo consigo mesmo e com o outro, distanciando-se de si próprio. José Saramago (2009) explica essa dicotomia, no encontro autor/leitor num paralelo de ser humano para ser humano:

“O que nós sempre contamos, afinal, é a nossa própria história, não a história da nossa vida, aquela a que chamamos biográfica, mas essa outra que dificilmente saberíamos contar em nosso próprio nome, não tanto porque nos desse demasiada vergonha ou nos trouxesse demasiado orgulho, mas porque o que há de grande no ser humano é grande de mais para poder ser  dito em palavras, fossem elas milhares, e porque o que faz de nós geralmente pequenos e mesquinhos é a tal ponto quotidiano e comum que por aí não encontraríamos nada de novo que pudesse comover esse outro grande e pequeno ser que o leitor é.”

Ella Berthoud e Susan Elderkin (Remédios literários-Quetzal 2016), livro baseado nas suas experiências como biblioterapeutas, fazem-nos compreender o que acontece:

“Por vezes é a história que encanta; por vezes é o ritmo da prosa que trabalha na psique, aquietando ou estimulando. Por vezes é uma ideia ou uma atitude sugerida por uma personagem que está num dilema ou num sarilho semelhantes.

Seja porque for, os romances têm o poder de nos transportar para outra existência e de nos fazer ver o mundo de um ponto de vista diferente (…/…) Seja qual for a sua doença, as nossas receitas são simples: um romance (ou dois) a ler com intervalos curtos.

Alguns tratamentos levam a uma cura completa. Outros apenas oferecem consolo, mostrando que não está só.

Todos lhe oferecerão o alívio temporário dos seus sintomas devido ao poder que a literatura tem de distrair e transportar (…/…).

Bruno Bettelheim (Psicanálise dos contos de fadas- Bertrand 2013-467), o livro referência para o entendimento das repercussões positivas da leitura, nomeadamente dos contos de fadas na infância, refere que:

“ Cada conto de fadas é um espelho mágico que reflete certos aspetos do nosso mundo interior e os passos exigidos pela nossa evolução da imaturidade para a maturidade. Para aqueles que mergulham naquilo que o conto de fadas pode comunicar, este torna-se uma lagoa profunda e mansa, que, ao princípio parece refletir somente a nossa própria imagem; porém, por trás, depressa descobrimos as lutas interiores da nossa alma”

Nas aplicações práticas destacamos a biblioterapia nas prisões, Alves (1982), considerou necessário a reeducação do presidiário, o direito á leitura como fonte de informação e como fator de diminuição de stress advindo da perda de liberdade, e o estudo de Fernández Vasquez (1989) que observou que as sessões de leitura de textos ficcionais em grupo, e individuais, num lar de idosos, através de um programa especifico e permanente de biblioterapia  resultou numa diminuição da ansiedade e depressão nos idosos estudados.

Em Caldin (2001), projeto que alia a literatura infantil à medicina pediátrica, observa-se o alívio temporário das dores e do medo resultante do ambiente hospitalar, na leitura de histórias infantis, que suportam emocionalmente a criança doente.

Finalizando, consideramos que a biblioterapia assume um papel ainda mais relevante quando se alia a áreas como a Psicologia, a Enfermagem, a Educação, a Literatura e a Bibioteconomia, num exercício permanente que permite a critica e a contribuição destas áreas científicas e sociais no crescimento sustentado e seguro da biblioterapia.

Na interdisciplinaridade reside o seu lugar estratégico, determinante e necessário na sociedade.

Texto: Sandra Corga Figueiredo  Imagem: Unsplash  Brandi-Redd

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