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Cascais, um concelho atrativo para os 50+

O Concelho de Cascais é apontado como uma das melhores zonas do país para se viver, sobretudo entre as pessoas com mais de 55 anos. Nesta entrevista, Miguel Pinto Luz, vice-presidente da Câmara Municipal de Cascais e antigo Secretário de Estado dos Transportes, confirmou-nos esse indicador e o esforço que a autarquia está a fazer para tornar Cascais e o Concelho numa referência nacional e internacional de qualidade de vida.

Encontrámo-nos com Miguel Pinto Luz no seu gabinete, no edifício da Câmara Municipal de Cascais, ali perto da baía e da praia dos pescadores, uma zona emblemática e onde acabam por cruzar-se todos aqueles que vêm até Cascais. Vista da janela, a paisagem é sedutora e deu-nos o mote para uma conversa, que reproduzimos aqui.

 

Impulso+ “Sem mobilidade não há democracia” é uma frase que lhe é atribuída e que já marcou muitas das suas intervenções. Que significado lhe atribui?

Miguel Pinto Luz. Trata-se de uma frase que reflete a constatação óbvia de que vivemos numa sociedade democrática e que por isso o dinheiro dos nossos impostos é canalizado para a criação de infraestruturas que servem a comunidade como um todo. É o caso, por exemplo, das escolas, museus, hospitais ou centros de saúde. Ora, se não garantirmos a mobilidade às pessoas dessa comunidade, estas não poderão usufruir dessas infraestruturas. Daí eu dizer que sem mobilidade não há democracia.

I+. Portanto, será importante garantir mobilidade para que pessoas possam usufruir daquilo que foi criado para elas e com o dinheiro dos seus impostos…

MPL. Exatamente. É fundamental a uma democracia saudável ser capaz de garantir uma rede de mobilidade acessível a todos, mas que também seja previsível, com custos acessíveis e que funcione com qualidade. Se isso não acontecer, corre-se o risco de fechar esse território e a sua oferta. Ou de estratificar essa comunidade numa lógica quase de castas, na qual só quem tem formas próprias de se transportar é que usufrui dos equipamentos que foram criados para todos e com o dinheiro de todos. Isto algo no qual eu não acredito e que não me faz sentido.

I+. O concelho de Cascais, pelas características da sua população, poderia correr esse risco…

MPL. Dizemos muitas vezes que vivemos num concelho de reis e pescadores, dois extratos populacionais icónicos e que estão associados à história de Cascais. Por isso, temos esta dicotomia permanente, que se traduz na coabitação entre famílias ricas e gente humilde, mas que todos os dias dá o seu melhor pelo país. É importante ter bem claro que trabalhamos e fazemos política para todos os grupos sociais e é por isso que a mobilidade tem de ser uma das nossas prioridades. É um aspeto chave para alcançarmos maior equidade social.

I+. As previsões da ONU apontam para a maior pressão sobre as cidades e as suas populações. Estimam mesmo que, em 2050, mais de 60% das pessoas vão viver em meios urbanos. Quer comentar…

MPL. Todos os dias temos acesso a estudos e muitos deles até apontam cenários ainda mais complexos do que esse. Mas julgo que o mais importante é perceber como viver com essa realidade. E há coisas que podemos melhorar, nomeadamente ao nível da mobilidade e transportes, tornando-a mais sustentável do ponto de vista económico e financeiro.

I+. Como assim?

MPL. Por exemplo, não terá cabimento fazer uma rede de metropolitano numa cidade com mil habitantes, pois esta não será rentável. Mas se tiver dez ou vinte milhões de utilizadores, isso já se torna possível. Há níveis de massa crítica mínimos que garantem a sustentabilidade dos sistemas e o acesso a uma série de infraestruturas de que todos podem beneficiar, nomeadamente nos transportes.

I+. …e mesmo noutras áreas da vida das comunidades, para além da mobilidade…

MPL. Claro que sim. Zonas mais densificadas conseguem recolhas de resíduos sólidos urbanos mais eficientes ou cuidados de saúde mais económicos, porque ganham escala. Mas, claro, também trazem outros problemas, como é o caso da qualidade ambiental, segurança, entre outros.

I+. E, fruto da sua experiência e da partilha de conhecimento com diversas entidades, como é que as cidades estão a olhar para estes desafios?

MPL. Posso falar por Cascais, um exemplo que naturalmente conheço bem. Estamos a procurar tirar partido do que a tecnologia nos pode oferecer. Smart cities, big data, open data, smart data, IoT são ferramentas que estamos a usar para nos ajudarem a tomar decisões de forma a melhorar a qualidade de vida dos munícipes e de todos aqueles que nos visitam.

I+. Estão, portanto, no caminho das cidades inteligentes…

MPL. Nós consideramos que Cascais é uma cidade inteligente há mais de 650 anos. É que esse estatuto não implica necessariamente a utilização de tecnologia, mas sim da forma como resolvemos os problemas reais das pessoas. Hoje continuamos comprometidos com uma boa qualidade de vida, com a criação de serviços públicos capazes de atrair mais pessoas para viver nesta terra, que gostamos de dizer que é a melhor terra para se viver por um dia ou a vida inteira.

I+. E que balaço preliminar é que faz desse esforço?

MPL. Estamos muito otimistas. Mas temos em conta que o país é um todo e que temos de continuar a olhar para a dicotomia entre interior litoral – que faz pouco sentido num país tão estreito como é Portugal. Ainda assim temos de perceber que há realidades diferentes e que as grandes metrópoles como Lisboa e Porto têm de ter efeitos de contaminação positiva nos seus arredores.

I+. Mas há ainda muitas assimetrias e muitas opções erradas que ainda estão a ter consequências…

MPL. Se nos últimos quarenta anos tivéssemos investido em ferrovia, hoje seria possível viver em Évora e trabalhar em Cascais, como acontece nas grandes cidades europeias. A rodovia não é um substituto da ferrovia e Portugal começou a perceber isso demasiado tarde. Portanto, acho que esse movimento de concentração e intensificação das cidades a que nos referimos atrás é uma realidade. Pode até ser salutar, desde que saibamos encontrar as soluções positivas para esse fenómeno e acho que Cascais está a conseguir fazê-lo.

I+. E hoje em dia, o que é que leva as pessoas a quererem fixar-se em determinada cidade?

MPL. Quando chegámos à Câmara de Cascais, há mais de 15 anos, tivemos essa preocupação de tentar perceber o processo de decisão das pessoas na escolha de um local para viver. Fizemos estudos locais, consultámos estudos internacionais e chegámos a uma conclusão muito interessante. As pessoas fundamentam a sua decisão em quatro fatores: educação, saúde, segurança e preço/investimento. As pessoas até estão na disponibilidade de viver em sítios menos bons para dar uma boa educação aos seus filhos. A educação e a saúde são as prioridades para as pessoas escolherem os locais para viver.

I+. E ajustaram a vossa gestão a essas conclusões…

MPL. Sim em Cascais preocupamo-nos com estes aspetos. Ampliamos a oferta de educação, não só pública como privada, para os nacionais e para os expatriados que escolhem o concelho para viver. Na área da saúde, houve investimento em centros de saúde públicos, fizemos o Hospital Central e atraímos os grandes grupos de saúde privados a fazerem investimentos com clínicas e hospitais. Também as IPSS fazem parte dessa oferta. Na segurança, criámos novas esquadras, investimos em equipamentos e na própria Polícia Municipal – quando o próprio poder central estava a desinvestir.

I+. E quanto ao investimento?

MPL. Nessa quarta dimensão, a do investimento, garantimos que o território se desenvolva de uma forma coerente. Ou seja, com qualidade arquitetónica e de espaço público, para que quem compre um ativo no concelho possa ter uma expectativa real da sua valorização. Sempre tivemos essa preocupação de trazer qualidade arquitetónica, arrojo e disrupção, fazendo de Cascais um sítio agradável para quem investe.

I+. Os eventos culturais, muito acarinhados pela Câmara de Cascais, também são uma forma de valorizar o concelho?

MPL. Depois de garantirmos as necessidades básicas e os nossos anseios – citando Maslow e a pirâmide das necessidades – investimos na cultura. É o caso da Orquestra Sinfónica de Cascais, museus, companhias de teatro, parques, espaços verdes, praias limpas, oferta desportiva… E nos últimos anos, fizemos uma aposta forte no ensino superior e na investigação, com a Universidade Nova em Carcavelos, projeto emblemático e que representa a ambição de Cascais perante a vida e o seu projeto de desenvolvimento.

I+. Há preocupação de atrair também uma população ativa com mais de 50 anos que queira ter o projeto de felicidade como referiu e que tenha dinheiro, conhecimento e disponibilidade? Como olham para este segmento?

MPL. De facto, essa é também a nossa preocupação e estamos a atrair muitos reformados. São pessoas acima dos 50, muitos delas expatriados, de origem francesa, que escolhem Cascais para viver. É um bom indicador, já que também queremos atrair população de mais idade e com talentos que podem acrescentar valor ao nosso concelho.

I+. E em termos de mobilidade, o que está a ser feito para este segmento dos 50+?

MPL. Lançámos já o novo concurso internacional de transporte rodoviário e tendencialmente queremos que o transporte público no concelho seja gratuito. A partir de janeiro de 2020 teremos transportes públicos mais eficientes em termos ambientais, com wi-fi de alta qualidade, previsibilidade de horários, e queremos desincentivar o uso do automóvel particular. É que estamos a ser vítimas do nosso sucesso, pois há momentos em que é quase impossível movimentarmo-nos em Cascais. Por isso, quisemos massificar a oferta de transportes públicos para depois desincentivar ao uso do transporte privado. Hoje, os jovens há mais tempo (+65 anos) têm uma tarifa quase residual. Os jovens até aos 21 anos não pagam nada.

I+.….e apostaram no famoso MobiCascais…

MPL. Sim. Criámos ainda uma app, desenvolvida para o concelho de Cascais, onde colocámos toda a oferta de transportes. Chamamos-lhe MobiCascais. Inclui táxis, Uber, transportes rodoviários, bicicleta, car renting, car sharing, bike sharing, bike parking, carregamento dos carros elétricos, estacionamento, transportes de doentes e transportes turísticos. Foi uma grande revolução para que cada um possa escolher a mobilidade que considere mais adequada.

I+. Como surgiu a ideia de fazer um MobiCascais?

MPL. A oferta de transportes no concelho estava dispersa e sentimos a necessidade agregar todos os serviços disponíveis numa plataforma única. Além disso, queremos caminhar no sentido de um flat fee. Hoje, em Cascais, através do pagamento de um valor fixo, conseguimos ter acesso a uma série de serviços de mobilidade, sendo que o objetivo primário foi claramente servir as pessoas e a comunidade.

I+. E, dois anos depois, que balanço faz desta iniciativa?

MPL. A adesão local está a correr muito bem, tanto entre os jovens como junto das pessoas com mais idade. A app é usada para estacionamento e como passe nos transportes públicos, podendo ser associada ao telemóvel, através de um QR Code. Os novos operadores que estão também a aderir.

I+. E qual a visão para o futuro?

MPL. Queremos continuar a melhorar o serviço e ampliar a oferta da plataforma. A monetização pode ser uma via para tornar o projeto autossustentável. Queremos ter pacotes integrados e personalizados, diferentes dos que já estão definidos. Começamos pelo ticket free, depois o card free e agora queremos passar para o phone free (não usar o telefone). Este último só é concretizável a médio prazo, pois implica o processo de reconhecimento facial, sobre o qual ainda há problemas de gestão e privacidade de dados.

I+. E a internacionalização deste projeto ou a sua utilização por parte de outros municípios?

MPL. Acredito que é na partilha que está o ganho e queremos partilhar estas boas práticas com quem as quiser aproveitar. A plataforma é completamente aberta. Copiem, melhorem e depois partilhem ou ensinem o que fizeram. Já estive no CES em Los Angeles, EUA, na maior feira de tecnologia do mundo, no MIPIM na maior feira de cidades, e em Barcelona nas Smartcities expo a mostrar o projeto. Temos andado pelo mundo e fomos premiados. Gostávamos muito que fosse aplicado noutros locais. Em Portugal, ainda não tivemos contactos…

I+. E na sua opinião qual é a cidade ou espaço ideal para viver no futuro?

MPL. A cidade ideal é Cascais e o que tem idealmente de existir são bons transportes, segurança, escolas para as minhas filhas, oferta cultural e ar puro – eu, em concreto, preciso de mar. É esta multiplicidade de serviços e oferta que tem de existir para me sentir realizado. Sou um homem da cidade. E uma cidade hoje tem de agregar tudo isto. E Cascais já o faz.

O que é o MobiCascais:

O MobiCascais nasce da necessidade de integrar os diferentes modos de transporte, combinada com a intenção da autarquia de assegurar a gestão dos transportes públicos de passageiros no concelho, contribuindo para a transferência das deslocações em transporte individual para os transportes coletivos e mobilidade suave. Inclui assim a exploração integrada dos parques de estacionamento, das zonas de estacionamento público tarifado, do aluguer de bicicletas partilhadas e dos transportes públicos de passageiros. Fonte: Mobicascais.pt

Texto: Entrevista Com Miguel Pinto Luz Vice Presidente da CMC – Publicado em Impulso+ | Publico

Imagem: José Ferrão | Brandscape

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