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Cirurgia funcional repõe “circuitos” da qualidade de vida

 

 


Não existe hoje qualquer dúvida de que os avanços em múltiplas áreas da Medicina têm conseguido não só prolongar o tempo de vida, mas principalmente melhorá-lo, ao permitirem manter uma atividade pessoal, familiar e social compatível com uma boa qualidade de vida. Para isto torna-se muitas vezes necessário minimizar os efeitos decorrentes do evoluir na idade, sendo que estes bem conhecidos factos têm uma aplicação direta no que se refere ao cérebro. A melhoria da qualidade de vida é exatamente o objetivo primordial da cirurgia funcional, um dos mais importantes avanços ocorridos na Neurocirurgia nas últimas décadas.

 

 

Mas o que é a cirurgia funcional?

A palavra cirurgia significa para a maior parte das pessoas retirar do corpo algo que está a prejudicar a saúde: um tumor, uma lesão, parte de um órgão. Mesmo levando em linha de conta a importantíssima evolução que as técnicas cirúrgicas têm sofrido, nomeadamente com as técnicas minimamente invasivas, nas quais a agressão cirúrgica é minimizada, a grande diferença para a cirurgia funcional é que nesta não há remoção de qualquer tecido: tem como objetivo corrigir a função de um circuito cerebral alterado responsável pelos sintomas que caracterizam uma determinada doença.

Em que situações está indicada?

Utilizemos o exemplo mais comum e mais conhecido que é a doença de Parkinson. Os sintomas (como rigidez, tremor e lentidão de movimentos) surgem porque há conexões cerebrais cujo funcionamento fica deficiente por falta de um mediador químico (dopamina). E, embora possa ter outras causas, a idade constitui uma das mais importantes desta redução do mediador, razão pela qual a doença é mais comum depois dos 60 anos. Logicamente, o tratamento desta situação passa por aumentar o mediador em falta ou reduzir a degradação do existente, utilizando os medicamentos necessários. Há, porém, muitos destes doentes em que, com o passar dos anos, a medicação deixa de fazer o efeito pretendido ou passa a provocar efeitos laterais indesejáveis e intoleráveis. São estes os doentes para quem pode estar indicada a cirurgia funcional.

Outras doenças em que está já perfeitamente demonstrado o seu valor são a distonia (contrações musculares involuntárias repetidas incontroláveis), várias formas de tremor, a epilepsia refratária e o transtorno obsessivo compulsivo, todas elas com uma característica comum: a impossibilidade da medicação específica controlar os sintomas. Em todas há também um circuito cerebral cujo funcionamento deficiente provoca os sintomas.

Como é efetuada?

O que fazemos é colocar num núcleo profundo do cérebro um elétrodo que lhe transmite um pequeno estímulo elétrico gerado numa bateria colocada no tórax ou no abdómen. Esta corrente elétrica de intensidade adequada altera o funcionamento desse circuito e consegue a reversão do quadro clínico com melhorias que variam de 40% a quase 100%. Se pensarmos que o nosso corpo tem uma atividade elétrica normal que, por exemplo, se regista nos eletrocardiogramas e nos eletroencefalogramas, compreendemos a simplicidade do princípio. Obviamente que em cada uma das doenças descritas o alvo é diferente, porque é também diferente a zona do cérebro causadora da anomalia.

Há já experiência suficiente e resultados conhecidos deste tipo de cirurgia?

A história da cirurgia funcional no modo como é atualmente praticada tem cerca de 30 anos e foi iniciada em Grenoble por Alim-Louis Benabid. Desde então, há mais de 600 mil doentes operados com esta técnica em mais de 500 centros distribuídos pelo mundo. Em Portugal, esta cirurgia foi iniciada em 2002, no Hospital de São João, existindo atualmente cinco centros no país a efetuá-la regularmente, operando no seu conjunto cerca de 100 doentes por ano (mais de 80% dos quais com doença de Parkinson).

E é uma cirurgia segura?

Não existe cirurgia sem riscos e esta também os tem. São, no entanto, reduzidos (menos de 0,5 % de mortalidade e de 2% de outras complicações graves), sendo consensual que os benefícios conseguidos ultrapassam em muito os riscos inerentes.

Que outras indicações estão neste momento em investigação?

Há, neste momento, importante investigação relacionada com outros alvos cerebrais sobre os quais a estimulação cerebral profunda permita modificar outros circuitos cerebrais. A mais importante prende-se com doenças psiquiátricas e com alterações da memória.

EM CONCLUSÃO: A cirurgia funcional foi um dos mais importantes avanços da Neurocirurgia recente, permitindo a muitos doentes voltarem a fazer sem ajuda atividades simples da vida diária (como vestir-se, lavar-se, comer ou conduzir) para as quais estavam incapacitados.

Decorridos estes 30 anos, está já numa fase madura, sendo facilmente previsível que da muito importante investigação científica em curso resultem contributos que permitam torná-la mais eficaz e alargar as suas indicações, ajudando mais pessoas a ultrapassarem a reduzida qualidade de vida a que estão condenadas pela sua doença.

Texto: Prof Rui Vaz Médico Neurocirurgião – Artigo publicado no Publico – Impulso+

Imagem: Unsplash

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