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Envelhecer ativamente

O “envelhecimento ativo” pode definir-se como a continuação da participação das pessoas na vida social, económica, cultural, espiritual e cívica e na manutenção da qualidade de vida.  O envelhecimento ativo exige aprendizagem. É necessário aprender a viver com saúde (no sentido lato do termo) e a evitar a redução da atividade que se traduz em horas sentado no banco do jardim, no café ou em casa a ver televisão. Envelhecer com saúde e ativo exige independência, autonomia motora, manutenção das capacidades cognitivas.

É sem dúvida a manutenção das capacidades cognitivas a principal condição do envelhecimento ativo. Da persistência das funções intelectuais dependem todos os outros condicionantes de envelhecer bem.

Mas não será o envelhecimento inexoravelmente responsável pelo declínio cognitivo? Não é o cérebro um órgão imutável desde a infância, ao qual mais não resta do que perder neurónios com o passar dos anos? Não é normal que o envelhecimento seja acompanhado de esquecimento, confusão, demência?

O conhecimento da neuroplasticidade foi uma das descobertas mais fantásticas do século XXI e veio destruir mitos e preconceitos até há bem pouco tempo arreigados na comunidade científica e na população em geral. O cérebro pode sempre aprender, em qualquer idade. Podem sempre formar-se novas células cerebrais e novas ligações entre elas.

     O cérebro é um órgão que se atrofia pelo desuso. Parar de o usar é condená-lo a perder memória, raciocínio lógico, identidade, autonomia.

Primeira sugestão: ler, discutir, fazer exercícios de estimulação mental, continuar informado e a viver os problemas da família, do país e do mundo é importante para não perder capacidades intelectuais. A genética desempenha seguramente um importante papel no “envelhecimento com qualidade”, mas o modo como se vive o dia-a-dia é crucial e explica por que muitas pessoas atingem idades avançadas mantendo as capacidades intelectuais intactas.

A segunda sugestão para um envelhecimento ativo é fazer exercício físico. O exercício físico mantém a mobilidade articular, combate a atrofia muscular e a osteoporose, melhora o aproveitamento do açúcar, ajuda a manutenção ou a perda de peso, baixa a pressão arterial e a frequência cardíaca, melhora a função respiratória, ajuda a manter o equilíbrio e a coordenação na marcha, evitando quedas, combatendo ou prevenindo a depressão. Também as funções intelectuais como o tempo de reação a estímulos, a memória, a inteligência e a atenção melhoram com o exercício físico.

Manter a atividade profissional que exerceu ao longo da vida, mas agora sem o condicionalismo dos prazos e das horas, ou iniciar novas atividades como dançar, nadar, escrever, estudar um assunto, jardinar… são modos de continuar ativo e de fazer exercício mental e físico.

A terceira sugestão é manter uma vida social ativa: encontros regulares com os amigos, descobrir novas amizades, inscrever-se em associações desportivas ou culturais, organizar reuniões, encontros de grupos, concursos, jogos… Nunca viver fechado consigo mesmo, fixado nas recordações do passado. Não viver na saudade do passado, como escreveu Pablo Neruda: “Saudade é amar um passado que ainda não passou, é recusar um presente que nos incomoda, é não ver o futuro que nos convida.”

    Quarta sugestão: fazer uma alimentação saudável. Comer fruta, legumes, carne, peixe, ovos. Guardar os doces para os dias especiais. Fazer refeições de pequeno volume e repetidas ao longo do dia. Beber muita água. Beber dois copos de vinho ou duas cervejas por dia. Guardar as outras bebidas mais fortes para os dias de festa. Evitar as refeições de um bolo e um café.

O envelhecimento traz consigo demasiadas vezes o que se designa por neuroticismo, que pode definir-se como um conjunto de sentimentos negativos: depressão, ansiedade, raiva, vergonha…

Quinta sugestão: aprender a lidar com o neuroticismo, a desenvolver e assumir atitudes positivas em relação a si próprio e ao mundo. Neste aspeto, os conselhos de Buda continuam úteis: “O segredo da saúde mental e corporal está em não se lamentar pelo passado, não se preocupar com o futuro, nem adiantar-se aos problemas, mas viver sábia e seriamente o presente.”

Mudar de atitude em relação a preconceitos como os de “agora já não vale a pena” ou “agora já é tarde”. É por isso importante assumir que “vale sempre a pena até ao fim” e, como nos canta Pedro Barroso, assumir “nunca ser tarde para viver, nunca ser tarde para compreender, nunca ser tarde para exigir, nunca ser tarde para acordar…”

  Um dos preconceitos que impede o envelhecimento ativo são frases como “já não fica bem” ou “já não têm idade” para viver, participar, fazer, apresentarem-se como sempre fizeram ao longo da vida!

Sexta sugestão: não alterar a atitude e o comportamento. As pessoas são as mesmas  que sempre foram. Apenas as limitações físicas (e só elas) poderão condicionar o que querem fazer. Não são os outros (os jovens, os moralistas, os conservadores, os censores, os críticos…) que ditarão o que tem ou não tem idade para fazer.

É o próprio que definirá o que quer e pode fazer, abolindo para sempre o preconceito: já não tenho idade!

Sétima sugestão: manter bem forte a vontade de viver, como escreveu Fernando Pessoa:

Não importa se a estação do ano muda…
Se o século vira, se o milênio é outro.
Se a idade aumenta…
Conserva a vontade de viver,
Não se chega a parte alguma sem ela.

Texto: Prof. Doutor João Gorjão Clara – Faculdade de Medicina da U.L. – Suplemento Impulso+ | Publico
Imagem: Unsplash

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