Loading...

Espaço InterAge: à procura de novas perspetivas para a resposta de centro de dia


Nos espaços InterAge são dinamizadas atividades de natureza diversa, como de lazer e animação sociocultural, horta comunitária ou organização de viagens

Sabemos que a longevidade é um fenómeno social complexo e que atinge proporções à escala global, não só pela dimensão que já atinge, mas também pela diversidade: a população vive cada vez até mais tarde, apresenta perfis e interesses mais heterogéneos e tem uma maior consciência da importância de prolongar um estilo de vida saudável, ativo e participado.

A Santa Casa da Misericórdia de Lisboa (SCML) tem seguido o princípio da promoção de um envelhecimento positivo, saudável e inclusivo e tem desenvolvido um trabalho essencial na cidade de Lisboa no apoio às pessoas com mais idade. Entre as várias respostas (serviço de apoio domiciliário, teleassistência e estruturas residenciais para pessoas de escalões etários avançados, entre outras), a SCML é responsável pela gestão de 20 centros de dia, com capacidade para mais de 1600 utentes, correspondendo a cerca de um terço da resposta existente na cidade.

Na última década temos assistido, em Lisboa, a uma progressiva redução quer do número de equipamentos e consequente capacidade, quer da taxa de ocupação desta resposta, o que põe em evidência a necessidade de uma mudança de paradigma e de estratégia de intervenção no que se refere aos serviços prestados à população dos escalões etários superiores. Mais do que garantir serviços de qualidade para a satisfação das necessidades, importa pensar em modelos inovadores de intervenção, centrados na pessoa, que promovam a participação e níveis elevados de bem-estar em sentido lato.

 

Envelhecimento positivo

 

Integrado enquanto medida do eixo da Vida Autónoma do Programa “Lisboa, Cidade de Todas as Idades”, o projeto InterAge tem como referências o “aging in place” e o “envelhecimento positivo” e propõe um modelo inovador para a requalificação desta resposta, privilegiando uma abordagem intergeracional e de abertura à comunidade, pautada pelo princípio da solidariedade, da promoção da qualidade de vida do e no território.

O incentivo ao exercício da cidadania e à participação das pessoas num projeto comum e a criação de oportunidades estruturadas de acordo com as reais necessidades e preferências das pessoas são aspetos basilares deste modelo. O intercâmbio entre as várias gerações e a divulgação de novas formas de encarar os processos de longevidade são apenas algumas das vias de combate ao idadismo.

O espaço InterAge constitui-se não só como um polo agregador de várias respostas sociais, mas também enquanto estrutura dinamizadora de serviços e produtos. Apresenta-se como uma via à cogovernação, com vista a uma melhor gestão e otimização dos recursos e dos meios existentes, potenciando sinergias, apostando no trabalho em rede, na articulação e na partilha de responsabilidades com as várias entidades do território, de modo a responder de forma flexível e ajustável às dinâmicas locais e às necessidades e expectativas de cada um com mais qualidade, eficácia e eficiência.

Com um horário de funcionamento mais alargado, a resposta torna-se mais ajustada e flexível, permitindo i) responder às necessidades das famílias com pessoas dependentes a cargo, aliviando assim o cuidador e conciliando os cuidados com a atividade profissional; ii) abranger população em idade ativa ou famílias em atividades no final da tarde; iii) potenciar o desenvolvimento de mais atividades no período da tarde; iv) garantir a utilização de parte do equipamento por entidades parceiras; v) garantir uma refeição de maior qualidade (jantar) e evitar o isolamento durante mais horas do dia.

Esta medida será realizada faseadamente até 2026, sendo já alvo de intervenção dez equipamentos, distribuídos pela cidade de Lisboa, em territórios diversificados do ponto de vista social e urbanístico.

A intervenção nestes dez equipamentos teve início em 2017, e incide em várias dimensões, como: i) a requalificação do edificado, melhoria das acessibilidades, adequação do mobiliário e decoração tendo por base a centralidade do service design thinking; ii) o redimensionamento e qualificação das equipas, para uma resposta mais especializada face ao novo perfil de utentes; iii) a estruturação de serviços e atividades com base na metodologia de projeto para uma maior adequação, diversidade e foco nos resultados.

É um espaço que oferece um leque variado, flexível e dinâmico de atividades e serviços, elaborado em equipa interdisciplinar e com base na auscultação e incentivo à participação de quem beneficia da resposta. Exemplo disto são as assembleias participativas, que permitem uma maior adequação da resposta às necessidades e expectativas de todos.

Nos espaços InterAge são dinamizadas atividades de natureza diversa, como de lazer e animação sociocultural, movimento e reabilitação física, estimulação cognitiva e sensorial, oficinas e grupos temáticos, inclusão digital, espaço de desenvolvimento pessoal, horta comunitária, organização de viagens, bar / restaurante self-service aberto à comunidade, incubadoras para startup de micro negócios, apoio a microempreendedores, entre outras.

Esta diversidade de atividades, de públicos e entidades participantes configura o desígnio do projeto InterAge: um espaço de interações entre gerações e promotor da economia social local.

Texto: Ana Mocuixe Moura – Socióloga – SCML – Artigo Publicado em Impulso+| Publico

Imagem: Unsplash

Artigos recentes