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Francisco George: “Nunca deixar para amanhã o que pode fazer hoje”

Francisco George é um homem discreto, com uma energia contagiante, um sorriso franco e uma vontade insaciável de contribuir para uma sociedade mais justa e igualitária.

A vocação e as ligações familiares

Desde tenra idade que tinha a certeza de que seria médico. Abraçar as obras sociais e mais tarde a causa pública foi um pequeno passo. Aliás foi evidente, ao longo da nossa conversa, que é mais fácil para ele falar destas causas do que da causa própria. Aos 13 anos decidiu tomar uma posição na sociedade e trabalhar para a diminuição das desigualdades sociais entre ricos e pobres. Muito cioso do seu papel de estudante, foi um aluno exemplar, sempre seguro sobre o que queria fazer enquanto profissional: “Estava muito em voga a realização dos testes psicotécnicos para perceber qual a vocação. No meu caso, sempre achei que não valia a pena fazer. E resolvi não fazer. Estava decidido! Em 1964, cheguei ao pé do meu pai e disse: ‘Medicina, alínea F!’ Os exemplos estavam muito marcados em minha casa. Tinha um pai médico e um tio arquiteto que passava muito tempo lá em casa. Escolhi medicina com tranquilidade. Nunca tive nenhum conflito sobre a escolha. A minha namorada com quem vim a casar, foi para arquitetura.”

O pai cedo decidiu separá-lo do seu irmão, que acabaria por ser enviado para Inglaterra. “Mas nós arranjávamos maneira de nos encontrarmos, às vezes mesmo às escondidas. Aos 14 anos estávamos à mesa com o meu pai, que diz: ‘A partir de amanhã não se encontram a caminho de casa, porque juntos não se concentram, andam sempre na brincadeira. A partir de amanhã não voltam juntos da escola’ (eu andava no Pedro Nunes e o meu irmão no Passos Manuel). O meu irmão quando acaba o almoço, pergunta alto e bom som: ‘A que horas sais, Francisco?’.”

Num site, que é repositório das suas aventuras e memórias da família, onde vai publicando as suas histórias e que batizou de “Dossier de lutas.pt” está bem patente a importância que atribui à família e a forte relação de amizade e cumplicidade com o seu irmão gémeo. “Éramos duas gotas de água”, diz-nos com orgulho. “Até aos 15 anos de idade éramos iguais. Só a minha mãe nos conseguia distinguir. A verdade é que as nossas mulheres tinham ciúmes do outro. A ligação é realmente umbilical…”

“Quando fizemos 70 anos, eu e o meu irmão publicámos uma foto que dizia:

‘Juntos há 70 anos, mais 9 meses menos 5 minutos.’ Juntámos todos os amigos para comemorar. Como bons gémeos, tínhamos sempre histórias para contar e algumas bem apimentadas…”

Conhece a mulher a caminho de Cambridge, onde ia visitar o irmão, e quando chega junto a ele, diz-lhe com enorme segurança: “Conheci a mulher com quem vou casar!”

Participou nos movimentos democráticos onde privou com muitos dos políticos da atualidade – Jorge Sampaio, Eduardo Ferro Rodrigues, entre outros ministros e políticos da nossa praça que também entraram nesses movimentos até 1974.

E a sua motivação era apenas uma: a consciência de que havia um mundo para além da família onde havia pessoas com enormes dificuldades: “Os bairros de lata em Lisboa eram uma realidade por todo o lado, o que representava um grande choque para um jovem como eu, naquela idade. O mundo, para além da família, tinha desigualdades e iniquidades que não podiam ser ignoradas ou escondidas para serem reduzidas e minoradas, e isso explica a minha participação nos movimentos democráticos.”

A medicina foi provavelmente a ferramenta que mais o ajudou nesta sua missão de vida:  “Não me lembro de em nenhum momento ter separado a minha atividade de médico das questões sociais, e principalmente das chocantes desigualdades, das iniquidades, que têm uma carga ainda mais pesada.”

A experiencia acumulada de 44 anos de serviço público

Acabou de entregar um ensaio na Fundação Francisco Manuel dos Santos sobre como “Prevenir doenças e conservar a saúde”, a que chama o “Testamento”, onde nos dá a fórmula para viver mais tempo. “Quem gosta de viver deve tomar opções para viver mais.” Este é, segundo o autor, o resultado de uma experiência acumulada de 44 anos na função pública. O ensaio tem uma fórmula final quase que matemática para viver mais e mais saudável. Estará disponível em janeiro de 2019.

A importância da alimentação logo desde a gestação, o exercício físico, não fumar, não abusar do álcool, das drogas ou de medicamentos quando não são precisos são comportamentos a ter para evitar a doença antes de tempo, explica. Embora os baixos níveis de rendimento sejam sem dúvida uma das determinantes sociais que podem, em muito, condicionar o envelhecimento, referindo um estudo de Michael Marmot.

As opiniões e os conselhos de Francisco George

Está desde 2017 à frente da Cruz Vermelha Portuguesa, logo após ter deixado o

cargo de diretor-geral da Saúde, por ter atingido o limite de idade (70 anos) para exercer funções na Administração Pública. Quando questionado relativamente à obrigatoriedade da saída, diz que está totalmente de acordo. “É preciso dar lugar aos mais novos. É justo e necessário dar lugar aos outros”, referindo ainda a necessidade de deixar escola e de deixar sucessores nos cargos.

Com uma personalidade forte, foi sempre uma pessoa saudável. Embora afirme: “Podia ser mais exemplar…não faço nenhum esforço.”

“Não faço esforço para fazer as coisas, não adio… Gosto de fazer as coisas.” Foi graças a uma tia do lado materno, que o ensinou a ler e que tinha por hábito contar histórias, que cedo descobriu a sua máxima: “Nunca deixes para amanhã o que podes fazer hoje.”

A propósito, quando o questionamos relativamente ao que mudaria na sua vida caso tivesse hipótese de voltar uns anos atrás, responde com grande segurança: “Nunca pensei nisso.”

Quanto a projetos para o futuro, pretende acabar o mandato de presidente na Cruz Vermelha Portuguesa e “retirar-me da vida pública, ou melhor, retirar-me dos compromissos desta natureza, pois a vida pública não pretendo abandonar. Está na minha essência”…

Tem a convicção de que não existe qualquer diferença entre as gerações, pois acha que os mais novos, quando inteligentes, percebem a importância de aprender com as gerações mais velhas, bebendo dos ensinamentos que lhes são transmitidos.

Começa sempre as reuniões com uma história ou uma poesia. Gosta de ensinar mas só quando sabe do que fala e com a esperança de que, para quem ouvir, lhe venha a ser útil. E o inverso também é verdade. “Ouço muito.” E na sala, as vozes dos mais novos puderam ouvir-se, afirmando: “É verdade. E tem mais energia do que todos nós…“

Termina esta conversa com alguns conselhos. Afirma que o processo de envelhecimento tem de ser ativo e que as pessoas têm de participar nos trabalhos da sociedade, dando sempre o seu contributo, em qualquer fase da vida. Os filhos devem aproveitar o tempo com os pais. Estimular os programas, as saídas, as rotinas, a leitura, a ida ao teatro e ao cinema. “O pior é colocar as pessoas fechadas nos atuais ERPIS – estruturas residenciais para idosos.” O que determina o envelhecimento é muito a ocupação e a inclusão. É na realidade mais o estilo de vida e não tanto a idade biológica. E cita, a propósito, o exemplo de Eduardo Lourenço, um dos nossos maiores pensadores, que tem hoje 95 anos.

Texto: Testemunho de Francisco George | Impulso+ | Publico em 08 Novembro 2018
Imagem: Francisco George CVP

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