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Happy ageing: Felizes para sempre

Mais do que envelhecimento saudável e ativo (active and healthy ageing), deveríamos estar a falar de envelhecimento feliz (happy ageing). Assim desafiou as consciências o Prof. Doutor José António Pereira da Silva, da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra, na primeira conferência da NOVAsaúde Ageing, no passado dia 19 de setembro.

Com uma perspetiva do tema tão pertinente e alinhada com o que achamos que deve ser o envelhecimento, à conversa com este reumatologista ficámos a conhecer melhor as suas opiniões e até convicções acerca do tema:

– Quais os grandes desafios que a nossa sociedade enfrenta relativamente ao tema do envelhecimento?

O envelhecimento da população é um problema social e económico de primeira grandeza. A percentagem de pessoas que atinge uma idade avançada é cada vez maior, impondo grandes exigências ao sistema de saúde e à Segurança Social. Para além disso, exige um contributo da população mais jovem, que está a diminuir em número e em disponibilidade para apoiar este esforço, pois tem uma educação cada vez mais sofisticada, não querendo dedicar-se a cuidar dos mais velhos.

A sociedade tem de adotar instrumentos e estratégias que permitam minorar este impacto. Os grandes movimentos que têm surgido no seio da UE focam-se mais nas condições físicas e de saúde, daí os termos utilizados: Active ageing e Healthy ageing com maior impacto económico específico. As pessoas que têm a capacidade de ser autónomas diminuem os custos sociais que decorrem do envelhecimento. Medidas positivas, sem dúvida. Mas o foco não deve estar apenas nas questões da saúde física e na longevidade, mas sim na qualidade e na satisfação com que se vive. O problema é que manter a pessoa feliz é menos mensurável e provavelmente menos rentável do que mantê-la com saúde física.

A grande preocupação deverá ser a qualidade de vida e não apenas o seu prolongamento. A vida tem de merecer ser vivida. Não me parece que devamos promover uma vida longa a qualquer preço. Cito o exemplo da minha mãe, que aos 97 anos precisaria de perder peso para viver mais tempo, o que a obrigaria a um corte na alimentação, uma das coisas que mais lhe dá prazer. Será razoável impor-lhe esse corte? Trata-se de um prejuízo para ela. Sem dúvida que deve, no mínimo, ser ponderado face ao ganho que isso pode acarretar.

O debate atual está centrado na saúde do corpo e na atividade física. Na minha opinião, deve centrar-se no que realmente interessa para cada pessoa: a fruição da vida! Esse deve ser o conceito central.

– Quais deverão ser os contributos da medicina para o envelhecimento?

Questiono muito o aumento da longevidade a qualquer custo. A meu ver, a perda da dignidade associada a certas formas de “sobrevida” questionam o seu valor e até a sua respeitabilidade ética. Preocupados em salvar vidas a qualquer custo, os médicos menorizam a qualidade de vida, que é fundamental. A satisfação de viver depende seguramente da autonomia, da saúde e da capacidade motora. Mas não só. Devemos relativizar a doença física em prol da alegria de viver. Podemos fazer um esforço grande para prevenir a artrose, a incapacidade motora e as suas consequências, mas estamos ainda muito limitados na prevenção e tratamento do declínio intelectual. Não me parece saudável criar a ilusão de que é possível envelhecer, indefinidamente, mantendo um ótimo estado de saúde. Ninguém morre saudável e a morte é inevitável!

Defendo que a medicina e a sociedade devem fazer um esforço dedicado para preparar as pessoas que envelhecem para manter o prazer de viver apesar das maleitas que inevitavelmente se acumularão com o envelhecimento. Se mantiverem alegria e capacidade intelectual, tudo valerá a pena! Veja-se o caso de Stephen Hawking, que, apesar de um corpo imóvel, sempre com sentido de humor, pôde produzir contributos tão relevantes para toda a humanidade.

Penso ser fundamental relativizar a doença física mantendo o prazer de viver – aprender a viver com a idade, ao invés de esperar que a velhice vá ser sempre ativa e saudável. Sugerir que isso é possível, sem abordar a hipótese alternativa e mais provável, como fazem a maior parte dos programas atuais, é semear frustração.

Promover Felicidade Mediante Cuidados de Excelência é o mote do serviço de Reumatologia do Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra, no qual é diretor. Como se materializa esta máxima no dia-a-dia do serviço?

 

É, para mim, claro que o objetivo da saúde física deve ser a felicidade. Quem ficaria satisfeito com uma saúde de ferro e uma tristeza esmagadora? Nós, médicos, somos formados e preparados para cuidar da saúde física e abordamos o doente como se lhe disséssemos:  “Eu restauro a saúde do seu corpo. O resto é consigo.” Como se a capacidade de usufruir dessa saúde para a transformar em prazer de viver não fosse também do foro médico. O que acontece é que os médicos não têm, em geral, grande formação para estas questões do foro psicológico, o que torna desconfortável lidar com elas.

O nosso mote veicula a ideia de que o meu papel enquanto reumatologista não se limita a restaurar as articulações ou evitar que se estraguem, mas que devo também ajudar o doente a transformar a saúde física em usufruto da vida, em prazer de viver. Esta é a dimensão do benefício para o meu doente. É assim que entendemos a medicina. A medicina deve ser a promoção da felicidade.

A outra dimensão veiculada pelo lema reside em que, enquanto profissionais de saúde, devemos caucionar a nossa felicidade profissional à qualidade do serviço que prestamos. Um médico incompetente ou que dá aos seus doentes menos do que poderia e deveria, só pode ser feliz se for inconsciente desses aspetos negativos. A qualidade dos serviços e a consciência com que o fazemos, a empatia que pomos na relação com os pacientes, deve ser uma condicionante da nossa felicidade.

Ao prestar cuidados de excelência estamos a servir os pacientes e a nós mesmos, enquanto profissionais.

– Que rotinas gostaria de partilhar connosco no sentido de ser mais feliz com a idade?

Há duas hipóteses para ser feliz. A primeira reside em ter sorte no “dia da distribuição de cérebros”, o que significa que se é uma pessoa feliz por natureza, tranquila, que saboreia as coisas boas da vida, que dá o valor certo às coisas certas. Essa pessoa teve sorte na distribuição dos cérebros! É a roleta genética.

Se não teve essa sorte, há que fazer um plano e cultivá-lo. A maioria das pessoas não é feliz espontaneamente – têm de esforçar-se para o alcançar.  A primeira condição para que isso seja possível é querer lá chegar. Querer verdadeiramente ser feliz! E o que fazemos para isso? Pergunto muitas vezes aos meus pacientes se querem ser felizes. Claro que a resposta é sim. Mas, e o que é que faz por isso? É como dizer: gostava que me saísse o euromilhões, mas nunca jogo…

Em suma, se não teve sorte em lhe sair um cérebro despreocupado e quer ser feliz, é fundamental que assuma isso como um objetivo de vida e trabalhe nesse sentido, mudando o que houver para mudar na sua vida e, sobretudo, na sua cabeça!

Acredito, sinceramente, que a única coisa que vale a pena procurar na vida é a felicidade – tudo o resto são formas de lá chegar…

Há um ramo da psicologia chamado psicologia positiva, que nasceu para ajudar as pessoas a serem positivas, resilientes e felizes. Há numerosos recursos nessa linha disponíveis na internet. Leia, procure, inspire-se e trate de ser feliz, pois será meio caminho para uma vida plena de significado e provavelmente também uma vida mais saudável e ativa.

Texto: Prof. Doutor José António Pereira da Silva, da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra- Noticia publicada no Suplemento Impulso+, Jornal Publico de 01 de Novembro.

Imagem: iStock

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