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A menina que nunca quis ficar parada – Manuela Eanes


Ex-primeira-dama e fundadora do Instituto de Apoio à Criança, hoje com 80 anos, Manuela Eanes nunca ficou parada, continuando a ser voz ativa na defesa do próximo.

Só existimos quando existimos para os outros – assim tem por máxima a frase do filósofo francês Emmanuel Mounier, que resume bem toda uma vida de dedicação aos outros, à família e à pátria. Manuela Eanes, uma Senhora de grandes ideais e determinação, que procura dar sempre o melhor em tudo o que faz. Foi nesta lógica de dedicação ao próximo que, desde muito cedo, despertou para a causa social.

Manuela Eanes foi primeira-dama num período de grande mudança socioeconómica de Portugal tendo estado à altura das exigências da época. O seu trabalho de âmbito social cedo se revelou, ainda durante os tempos de faculdade, nos anos 60. Colaborou em diversos projetos no Ministério da Saúde e Assistência e no Instituto de Obras Sociais, onde trabalhou em projetos ligados à infância e à terceira idade, dinamizando atividades de cariz formativo, recreativo e cultural. Com um trabalho notável, é de salientar a criação das cantinas escolares, infantários e a atribuição do subsídio de velhice e invalidez que começa a ser concedida aos antigos regentes escolares.

Muito fez em prol da sociedade. Mas se tivermos que eleger o grande trabalho na área social, será sem dúvida a fundação, em 1983, o Instituto de Apoio à Criança (IAC), do qual é, atualmente, presidente honorária. O IAC desenvolve um trabalho ímpar com crianças, jovens e suas famílias, quebrando o tabu da violência contra a criança, tema que há 30 anos nem a própria comunicação social abordava. Procurou assim criar e dinamizar projetos que não estivam cobertos pelo estado ou por outras organizações.

Encara todos os desafios com grande responsabilidade e espirito de missão, influenciando todos os que consigo trabalham, inspirando e entusiasmando equipas com a sua capacidade de liderança e exemplo. Com este trabalho ímpar, conseguiu, de resto, uma grande credibilidade e reconhecimento público. Credibilidade e reconhecimento que atribui sempre ao trabalho de uma equipa dedicada e exigente, falando com grande carinho e afeto de quem a acompanhou na sua realização.

Reforma-se em 2005 como Assessora Principal do Ministério de Educação, tendo mantido o cargo de Presidente do Instituto da Criança até ao ano passado, passando atualmente ao cargo de presidente honoraria.

Hoje com 80 anos, cumpridos a 29 de dezembro último, Maria Manuela Duarte Neto Portugal Ramalho Eanes, de seu nome completo, nunca ficou parada, continuando a ser voz ativa na defesa do próximo. “Devo cumprir o meu destino de não ficar parado”, frase do poeta Sebastião da Gama, que é, de resto, um dos lemas de sua vida.

Direito por orientação do pai

Cresceu em Lisboa, no bairro da Madre de Deus, onde passou grande parte da infância, uma infância feliz. Vivia com a mãe, dedicada à família, com o pai, que embora tendo nascido pobre, fez carreira a pulso depois de um percurso académico brilhante, e com o irmão. Da Madre de Deus recorda uma infância feliz “numa rua sem saída onde as crianças brincavam livremente e subiam as árvores”.

Fez o liceu e ingressou no curso de Direito na Universidade de Lisboa, por orientação do pai. Queria ser assistente social, mas o pai disse-lhe sempre que o curso Direito “era ótimo pois dava para quase tudo… só não dava para duas coisas: rezar missas e passar receitas”. Assim foi para Direito. Hoje, concorda que “o Direito é muito abrangente” e que lhe deu “acesso a uma boa formação, com uma visão completa de várias áreas”.

É logo na faculdade que Manuela Eanes se empenha civicamente, sendo militante do Grupo de Ação Católica e presidente da Juventude Universitária Católica. Teve professores que a marcaram muito, como Palma Carlos, Magalhães Colaço ou Marcelo Caetano. Concluído o curso, e apesar de ter feito um estágio numa sociedade advocacia, cedo se apercebe que a sua “vocação era outra”.

Primeira-dama modelo: paz e determinação

Era na liderança da obra social de Ministério da Educação que Manuela Eanes estava, aos 37 anos, quando o marido foi eleito Presidente da República, a 27 de junho de 1976. António Ramalho Eanes foi, aos 41 anos, o primeiro Presidente português eleito por sufrágio universal e tinha a seu lado uma mulher jovem, vistosa e licenciada, que estava a constituir uma carreira profissional na esfera da ação social, a par da sua vida familiar. Isso representou uma lufada de ar fresco quando comparada com as tradicionais primeiras-damas que até então o país tinha conhecido.

Manuela Eanes conhece o marido no dia de Ação de Graças e, com um brilho no olhar diz que é o seu príncipe encantado. Menciona uma frase que lhe foi dita na altura por António Ramalho Eanes, que nunca se esqueceu e que considera muito bonita: “Tu dás-me paz! E a paz é o valor o importante na vida das pessoas”.

Sempre calma, com grande determinação, Manuela Eanes realça “Sou uma pessoa serena, gosto de estar em paz comigo e com os outros, mas também gosto de dar a minha opinião”.

A família foi sempre uma grande prioridade da sua vida. Refere-se ao marido com um homem de carácter, sensibilidade, com um grande gosto pela leitura, muito culto e humano. E, assim, vivem casados há quase 50 anos. Têm dois filhos, dois rapazes e hoje em dia já três netos.

Esteve sempre junto ao marido em épocas marcantes da história de Portugal, como o 25 de Abril de 1974, o Verão Quente de 1975, os dez anos de mandato na Presidência da República.

Enquanto primeira-dama, teve “contacto com muitas personalidades da vida social nacional e internacional”, como a rainha Isabel II, Ronald e Nancy Reagan, madre Teresa de Calcutá, irmã Lúcia, Papa João Paulo II, Samora e Graça Machel entre outras.

Numa visita de Estado, o “Washington Post”, num artigo dedicado a visita do casal Eanes aos Estados Unidos, descreve Manuela Eanes como “uma primeira-dama modelo” pelo seu trabalho social. É sem dúvida, o reconhecimento do esforço para com os menos favorecidos e a excelência de um trabalho desenvolvido até então.

O silêncio que lhe enche a alma

Depois de toda uma vida ativa, volta à sua casa na Madre de Deus onde se vê envolvida e rodeada pelo silêncio do seu jardim. Em companhia das suas buganvílias, camélias e hortenses afirma que “precisa e valoriza” o silêncio, que lhe “enche a alma” e lhe dá “força e vontade” de todos os dias pensar num novo começo.

De natureza extrovertida, otimista, com uma grande simplicidade e dedicação aos outros, Manuela Eanes pretende continuar a fazer o que sempre fez: “Pôr tudo quanto és no mínimo faças”, como disse Ricardo Reis, é outras das máximas de uma vida plena e marcante de uma mulher exemplar que sabe dar muito de si ao serviço dos outros, pois na vida “é preciso criar laços” evocando Saint-Exupéry.

Criar laços, é alias uma das suas características mais notáveis e que reflete bem todo o trabalho de uma vida de união e partilha entre os projetos, organizações, pessoas e povos, num trabalho impar em prol do bem comum, da dignidade humana e da diminuição da pobreza e das desigualdades.

Pois certo é que na vida, todos precisamos de “criar laços”.

Texto: Drª Manuela Eanes – Artigo Publicado em Impulso+| Publico

Imagem: Direitos reservados

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