Obrigada, Diogo Vasconcelos.
O Diogo Vasconcelos deixou-nos cedo demais
INOVAÇÃO SOCIAL, A AGENDA DO FUTURO
Aos 43 anos tinha já um assinalável curriculum, daqueles que marcam realmente a presença no mundo. Foi um grande responsável pela reformulação do conceito de Inovação na União Europeia, integrando a noção de inovação social, um passo essencial para novas políticas. Mas esta é apenas uma das muitas coisas que se pode dizer que o Diogo deixou ao mundo.
O Diogo conheceu a génese do Impulso Positivo e incentivou-nos. Deu um grande contributo para o livro de Gestão de Organizações Sem Fins Lucrativos editado pelo Impulso Positivo em parceria com a UDIPSS-Porto e com a Tese. Redigiu a coluna de opinião na primeira revista Impulso Positivo. Tinhamos planos em comum.
Obrigada Diogo.
Aqui fica uma homenagem singela, a publicação da tua coluna de opinião, até agora apenas impressa na revista. Para que todos que queiram a possam ler. E se possam inspirar. O Diogo era homem de acção e acção com impacto social. Que nos sirva a todos de exemplo.
Dia 4 de Fevereiro o Conselho Europeu aprovou o novo plano de inovação europeu, uma das iniciativas bandeira da Estratégia Europa 20/20. O novo conceito de "Innovation Union" incorpora a decisão de focalizar os esforços de inovação da Europa nos grandes desafios da sociedade: as alterações climáticas, a segurança energética e alimentar, a saúde e o envelhecimento da população. A Inovação Social é hoje um elemento-chave na política de inovação europeia. Uma opção política acertada e que merece aplauso.
Como combater as alterações climáticas, as quais terão uma multiplicidade de impactos, no trabalho, nas cidades, na produção e distribuição? Como reduzir a pobreza e exclusão social, ainda mais acentuadas em períodos de crise como o que vivemos? Como combater a desqualificação, fazendo evoluir o sistema educativo tradicional, burocrático e dirigido centralmente, típico de uma educação "industrial", própria dos séculos passados? Como aumentar a qualidade de vida dos mais séniores, num País e numa Europa a envelhecer, onde ser idoso significa depressão, isolamento, solidão, que as soluções institucionais têm, tantas vezes, o condão de agravar? Como alterar um sistema de saúde pensado para doenças agudas e tratamentos pontuais, num tempo em que proliferam as doenças crónicas, cujo tratamento depende, em grande medida, da colaboração e empenho do próprio doente ao longo de períodos prologados? Que tipo de mudanças radicais nos modelos de serviço podem ser introduzidas na administração pública, hoje confrontada com a necessidade de fazer mais com menos? E que novo papel deve o Estado assumir num mundo em que a lógica do "comando e controlo" é crescentemente substituída pela expectativa de colaboração, de criação colectiva e de participação de cidadãos e da sociedade civil? Como tirar partido da capacidade e inteligência colectiva para imaginar novos futuros possíveis, novas oportunidades de solução?
Os desafios são vastíssimos, as novas soluções ainda escassas e sem escala. Daí a pertinência da inovação social, que se traduz em novas ideias ou em novas aplicações de ideias existentes, na resposta a necessidades sociais. Respostas que mobilizem diferentes agentes, públicos, privados e organizações sem fins lucrativos, envolvam os utilizadores e criem inegável valor social. Respostas que combinem efeitos de curto prazo, de combate à crise, com efeitos de médio prazo, para uma retoma sustentável.
A actual crise deve ser aproveitada como um ponto de viragem e um momento de criatividade social. Todas as grandes recessões no passado assistiram à emergência de novos sectores e de novas empresas e organizações. E a Inovação Social surge como uma agenda natural no século XXI. No recente livro "Gestão de Organizações Sem Fins Lucrativos – o Desafio da Inovação Social" procurei contribuir para este debate com sete propostas para uma agenda de inovação social. Vou aqui focalizar-me em duas delas.
APRENDER COM O MUNDO
Uma das mais importantes evoluções das duas últimas décadas foi a globalização do processo de inovação. Os recursos necessários para inovar estão dispersos, o que impõe a necessidade de desenvolver a capacidade de identificar, ao nível mundial, os melhores componentes, talentos e parceiros. É hoje possível, mesmo a partir de país "improváveis", criar produtos globais para o mercado global usando talento global. Muitas das inovações, mesmo de cariz social, estão a surgir em países que teimamos em classificar de "emergentes", sociedades com grandes carências sociais e escassez de recursos que têm um maior incentivo para inovar radicalmente. As inovações radicais podem e devem ser replicadas, mesmo no mundo ocidental, em áreas tão diferentes como o acesso ao crédito (o micro-crédito nasceu no Bangladesh e não em Wall Street) ou os pagamentos móveis (o M-Pesa foi criado no Quénia e não em Sillicon Valley).
A consequência: se quisermos ousar imaginar novos futuros, temos de ser capazes de melhorar a nossa capacidade de aprender com o mundo - em vez de impor as nossas soluções. Uma globalização que significa colaboração e não estandardização. Criada há quatro anos pela Young Foundation, Cisco e dezenas de outras entidades, a rede Social Innovation eXchange (SIX) tem a missão de ser um sensor global. Criar uma plataforma global para a inovação social é o objectivo do Dialogue Café, associação que está a desenvolver uma rede internacional de espaços físicos destinados a organizações com objectivos de natureza social – incluindo escolas, universidades, organizações sem fins lucrativos, grupos comunitários e empreendedores sociais. Ligados através de uma rede global que conecta os diversos cafés em todo o mundo, os Dialogue Cafes serão, por excelência, espaços para inovação e criatividade, com um foco particular no diálogo intercultural, participação cívica e artes, criatividade e cultura.
ESTIMULAR A AJUDA MÚTUA
As mais importantes formas de apoio mútuo decorrem da interacção voluntária entre as pessoas e não envolvem qualquer transacção. Quando, no nosso dia-a-dia, tratamos de alguém doente, proporcionando ajuda a um amigo ou familiar, visitamos um parente idoso, olhamos pela casa do nosso vizinho na sua ausência ou damos simplesmente atenção a um colega, tudo isso faz parte daquilo que David Halpern chama "economia da atenção". Só uma pequena parte do nosso tempo (estima-se que um quarto) é dispendido em trabalho pago. Cerca de dois quartos da nossa vida é gasta em trabalho não pago (cuidar de alguém, arranjar a casa, cozinhar) ou em tempos livres (ler, passear). Um dos maiores desafios das sociedades é criar formas que levem a pessoas a apoiarem-se mutuamente, a começar no âmbito do círculo de confiança onde se movem. As novas redes sociais a que pertencemos têm um enorme impacto em cada um de nós. O que somos é em parte determinado pelas redes em que participamos. Essas redes evoluem ao longo da nossa vida, e são importantes pois ajudam-nos a alcançar o que não conseguiríamos por nós próprios.
O Southwark Circle, em Londres, é um bom exemplo, concretizado pela empresa de design de serviços sociais Participle, fundada por Hillary Coton e Charles Leadbeater. Com o apoio do governo, da autarquia e da Sky, este projecto começou pela análise das condições de vida dos cidadãos séniores, uma boa parte da população desta zona. A partir dessa análise montou-se a empresa social Southwark Circle, a quem o município delegou competências, e que presta um conjunto de outros serviços ajustados às necessidades específicas dos mais velhos. Qualquer pessoa pode participar ou ser membro desta associação, cujos serviços são prestados pelos próprios idosos. Deixam de ser clientes, passam a ser produtores. Deixam de ser cidadãos passivos, passam a ser participantes. Estamos a falar de serviços facilitados pelos próprios, desde fazer uma pequena reparação em casa como mudar uma lâmpada, compor um autoclismo ou reparar um fogão. O "circle" identifica os talentos de cada um e disponibiliza alguém para prestar esse serviço. Ao prestar esse serviço, reforça os lados da comunidade, sente-se útil, é estimulado, cria novos amigos. Através desta plataforma de entreajuda, deixa de ser um fardo, passa a ser um activo valioso da comunidade.
A tecnologia não resolve problemas, as pessoas resolvem problemas. O que a rede vem permitir é que as pessoas tenham contacto entre si, sem intermediários e sem limites geográficos, mas com base em comunidades de interesse. Para terem acesso à informação e produzirem informação, para partilharem conteúdos, para realizarem acções colectivas - três níveis de envolvimento sucessivamente mais importantes. Esse poder da net pode e deve estar ao serviço do mundo, para dar resposta às questões mais prementes.
Diogo Vasconcelos
Revista Impulso Positivo, Jan/Fev 2011




