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Reforma, o grande lazer?


À medida que vamos avançando na idade, a nossa perceção sobre o trabalho vai mudando. Alguns de nós temem o fim da atividade laboral, gostariam de permanecer para sempre no contexto da sua organização, prolongar o seu contributo, continuar a descobrir o seu talento. Outros, ao contrário, anseiam pela reforma, sonham com o momento em que cessam as suas tarefas e obrigações e perspetivam um futuro de ócio e de prazer.

O entendimento varia de pessoa para pessoa e depende da profissão, do conteúdo funcional, das circunstâncias sociais, económicas e de saúde.

Em qualquer caso, um dia virá em que tomaremos essa decisão ou seremos obrigados a fazê-lo. Os Princípios das Nações Unidas para as Pessoas Idosas recomendam que cada um de nós deve poder escolher esse momento, para que o mesmo seja a manifestação da nossa vontade, antecedida por uma decisão ponderada e com um impacto positivo.

Vivemos hoje um tempo de contradições e dilemas, em que a longevidade fundamenta o prolongamento dos anos de trabalho e da carreira contributiva, mas em que o mercado de trabalho rejeita os mais velhos e empurra-os para uma cessação do trabalho, por vezes muito precoce.

Planear com antecedência

Qualquer que seja o destino que nos espera, é preferível que este seja desenhado por nós, que seja o resultado de um envelhecimento positivo, planeado à distância, resultado de um percurso amadurecido e preventivo.

Quer seja um programa desenhado pela empresa ou entidade em que estamos inseridos, quer seja por nossa iniciativa, é importante que pensemos numa estratégia para a nossa reforma.

O planeamento atempado dessa fase da nossa vida pode fazer a diferença entre encontrarmos uma liberdade ansiada ou uma armadilha de frustrações.

Em rigor, a reforma prepara-se, não no ano em que atingimos o limite da idade, não quando sabemos que vamos ser dispensados, mas cedo, quando ainda nos faltam muitos anos para deixarmos o nosso posto.

A preparação da reforma implica reconhecer que o trabalho não pode ser o único objetivo da nossa existência e que antes, durante e depois de sermos trabalhadores, somos cidadãos. A reforma prepara-se semeando relações pessoais, equilibrando a vida profissional com a vida familiar, investindo na capacitação contínua, adotando estilos de vida saudável, procurando garantir a qualidade de vida e a independência financeira na idade tardia.

Não devemos ser surpreendidos pela constatação de que, afinal, somos dispensáveis e substituíveis e que, um dia depois de recebermos uma homenagem e uma medalha por anos de serviço, somos rapidamente esquecidos.

A forma como vamos viver depois de deixarmos de trabalhar depende muito de nós, da nossa capacidade de nos conhecermos e de definir prioridades, de conhecermos os nossos direitos e sermos capazes de os exercer. Para que a reforma não seja um tempo de exilio, mas o grande lazer.

Texto: Paula Guimarães – Jurista – Artigo Publicado em Impulso+| Publico

Imagem: Unsplash

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