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O rendimento no futuro | O valor da experiência e da informação pessoal

Por Pedro Pita Barros – Professor catedrático da Nova School of Business and Economics, in Impulso+ | Publico edição de 04 de Outubro de 2018

A primeira associação com o termo rendimento é a de remuneração monetária do trabalho. Essa é apenas uma de várias possibilidades. Rendimento é a disponibilização de meios (em euros, ou não) que tem como base o uso de “recursos”. O tempo disponível e a capacidade para trabalhar são os recursos que dão origem ao salário. Idealizar uma campanha publicitária usa tempo e criatividade de quem nela se empenha; produzir um copo envolve materiais, equipamento e o esforço, mais ou menos automatizado; prestar um serviço envolve normalmente tempo e conhecimento, etc.

Ver o rendimento deste modo, como resultado do uso de recursos, é útil para olhar o que será o rendimento no futuro. Estamos talvez demasiado habituados a pensar em rendimentos de trabalho e de capital, associados a ativos físicos (como imóveis ou terrenos arrendados) ou financeiros (como depósitos a prazo, obrigações e ações de empresas).

Duas tendências que são mencionadas a propósito de rendimento são a instituição de um rendimento básico universal (em experiência na Finlândia e no Canadá) e a crescente automação, com ou sem algoritmos de inteligência artificial, de atividades desempenhadas atualmente por trabalhadores humanos.

Na primeira tendência, o aspeto central é o rendimento ser independente dos recursos que cada um possui e do que entende fazer com eles. A principal dificuldade que se pode antecipar a uma generalização a toda a população desta ideia é como ter recursos suficientes para essa distribuição. As experiências em curso ainda são de pequena dimensão, procuram compreender que efeitos poderá ter esta ideia no comportamento, estilo de vida e satisfação das pessoas.

A segunda tendência, a automação, é de natureza distinta. Vai gerar mais recursos disponíveis e, logo, mais rendimentos, mas com a distribuição desse rendimento mais concentrada na população se forem mantidos os atuais mecanismos da sociedade quanto a impostos, mercado de trabalho e redistribuição de rendimento. A tensão está na (re)distribuição de recursos, e se exigirá uma intervenção pública (de que tipo).

Estas tendências estão ainda dentro de um quadro tradicional. O desafio é imaginar recursos que venham a ser mais valiosos no futuro e que possam dar origem a rendimentos.

Tem sido usada, muitas vezes, a expressão “sociedade do conhecimento”, quase exclusivamente associada à ideia de informação e em particular de informação digital. Porém, pouco se fala sobre o valor da experiência como recurso. A construção de experiência não é imediata. A experiência acumula-se, exigindo capacidade de avaliação e julgamento que vai além da mera recolha de informação. É um recurso que será dificilmente transmissível, associado à idade. A capacidade mental de resolução de problemas inesperados ganha importância relativamente face à capacidade física. E nesta linha, mais importante do que a idade e o vigor físico para o trabalho será essencial a saúde mental para o desempenho dessas atividades.

Haverá novos desafios: quando é o esforço físico da tarefa que está em causa (seja força, rapidez, ou destreza) não é muito complicado definir o que é resultado da ação individual ou do grupo. Porém, quando está em causa a qualidade de uma decisão, tomada em grupo ou individualmente, como o momento adequado de apanha de fruta, é menos evidente como saber a contribuição de cada pessoa para a decisão. A própria forma de definir o modo de contribuição, o seu ritmo e o rendimento associado será potencialmente diferente do que vemos hoje,  abrindo espaço para uma população reformada mas não inativa, envolvida nas atividades produtivas, mesmo depois da reforma oficial.

De forma similar à posse de ativos físicos ou financeiros poderão surgir formas de gerar rendimento a partir da informação obtida rotineiramente da vida diária de cada um. Um prenúncio disso é a informação que resulta das redes sociais e dos vários dispositivos que usamos regularmente (telefones, relógios, pulseiras inteligentes, etc.). Muita dessa informação não foi originada com a intenção de obter rendimento, mas sabemos que é útil para alguém. Se vier a ser suficientemente interessante, existirá quem pague por essa informação.

O futuro do rendimento irá, provavelmente, combinar estes vários elementos e terá de lidar com novos desafios, em função das desigualdades de rendimento (e riqueza) que daí possam emergir.

Tudo o que implique decisão e capacidade de julgamento ganhará importância como fonte de rendimento, ao longo da vida ativa. A evolução do rendimento com a experiência demonstrada será diferente da que vemos hoje.

É previsível que gerar informação a partir das nossas vidas diárias venha também a ser fonte de rendimento (passiva), quase da mesma forma que um depósito a prazo dá origem a rendimento. Assim, não se deixará de dar contribuição e receber rendimento por isso, muito para lá dos 60 anos.

Texto: Artigo por Prof Doutor Pedro Pita Barros da Universidade Nova de Lisboa, publicado em Impulso+| Publico
Imagem: Unsplash

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