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SCML: 520 Anos de obra feita

Entrevista a Edmundo Martinho, provedor da SCML publicado na primeira edição do Impulso+ | Publico que saiu dia 04 de Outubro e onde nos foi dado a conhecer a grande obra feita pela SCML nos 520 anos passados e muitos dos novos projetos que estão em curso para o futuro.

  1. A SCML faz este ano 520 anos! É sem dúvida um bom exemplo de envelhecimento ativo. Foram muitos os projetos desenvolvidos. Olhando para trás, como vê o caminho percorrido até aqui?

A Santa Casa é um exemplo bem-sucedido de longevidade, muito graças à sua capacidade para se adaptar aos tempos e contextos. Há um cuidado em perceber quais as exigências e as necessidades sociais, de modo a responder a elas de forma eficaz e inovadora. Além disso, é uma instituição que disponibiliza a todos quantos precisam uma resposta que não se limita ao pensamento que a originou e que lhe está na génese.

Esta “receita” de vanguarda, esta capacidade de nos posicionarmos no tempo e no espaço, é reconhecida pela comunidade, e isso só acontece porque a Santa Casa desenvolve sempre projetos pioneiros, que envolvem o que consideramos ser o nosso bem maior: os nossos utentes e os nossos profissionais.

  1. Nesse caminho identifica alguns momentos que considere decisivos para esta instituição? Se sim, identifique e explique-nos porquê?

Os momentos mais decisivos para a SCML foram e são todos aqueles que, de forma eficaz e objetiva, fizeram e fazem a diferença na cidade de Lisboa e na comunidade.

O nosso foco é melhorar significativamente a qualidade de vida das pessoas e é com isso em mente que, no domínio da ação social, da saúde, do património e da cultura, têm sido desenvolvidas respostas. Contudo, não perdemos de vista a necessidade imperiosa de assegurar a capacidade de sustentação no futuro.

É um trabalho contínuo e permanente, assente num conjunto de valores intemporais, que apenas se adaptam e adequam às exigências e às condições de cada tempo.

O lançamento de iniciativas inovadoras nos vários domínios de responsabilidade da SCML, dos Jogos Sociais à Ação Social, têm marcado, de forma muito nítida e impressiva, a nossa história. E esse carácter decisivo exprime-se na capacidade de ir mais além, de testar novos caminhos e novas metodologias.

Diria, por isso, que não podemos falar de momentos em particular, mas numa história contínua de renovação e crescimento.

  1. E olhando agora para o futuro, como vê a SCML a preparar os próximos 520 anos da sua história?

É uma pergunta muito importante e pertinente. Ela vai, aliás, ao encontro da prioridade que temos vindo a dar a metodologias robustas de planeamento, que têm uma dimensão prospetiva de médio e longo prazo.

Quero com isto dizer que a SCML pondera os projetos a desenvolver com base numa visão de futuro. Ou seja, pretendemos desenvolvê-los com um sentido de continuidade e temporalidade, capaz de resistir, assumir e aprofundar as áreas de missão da SCML. Fazemo-lo numa atitude de permanente questionamento e inovação, fonte privilegiada de sustentabilidade e perenidade.

Naturalmente, a excelência da intervenção naquelas que são as nossas áreas de responsabilidade vão continuar a ser a matriz e o referencial de todas as opções e caminhos que tomarmos.

  1. Já iremos falar de alguns projetos concretos, mas para melhor enquadramento, em que áreas é que vão querer estar mais empenhados?

O empenho da SCML é determinado pelas necessidades das pessoas e da cidade. No entanto, temos como prioridades o aumento da capacidade e da qualidade das respostas a disponibilizar, numa absoluta lógica de complementaridade com as políticas públicas na área da ação social e da saúde.

Também estamos a apostar no desenvolvimento progressivo da oferta de respostas residenciais para pessoas em situação de dependência, aproximando o modelo de gestão e funcionamento das ERPI (Estrutura Residencial para Pessoa Idosa) e da UCCI (Unidade de Cuidados Continuados Integrados), de modo a assegurar uma abordagem renovada.

Outra das áreas em que estamos empenhados é na capacitação da oferta e diversidade de respostas no apoio domiciliário qualificado, com uma convergência progressiva dos cuidados (Saúde e Social), tendo como referencial a pessoa.

Por fim, também estamos a focar-nos no desenvolvimento de uma política de gestão do património edificado da SCML, garantindo a sua reabilitação. Desta forma, pretendemos reforçar o compromisso com a cidade e oferecer habitações a preços mais moderados.

  1. “Lisboa, Cidade de Todas as Idades” é um dos programas de referência e a ser desenvolvido com a Câmara Municipal de Lisboa. Como está a correr a implementação desse projeto?

O programa “Lisboa, Cidade de Todas as Idades” é, de facto, um dos projetos emblemáticos. Nasce de uma vontade muito evidente de melhorar a qualidade de vida da população mais velha e resulta de uma carência da cidade relativamente a este grupo etário.

Com ele, mais importante do que qualquer definição, pretende-se contrariar o paradigma dominante, combatendo e desconstruindo os estereótipos e os estigmas que, ao longo dos tempos, se foram associando quer ao envelhecimento quer às pessoas de idade avançada.

Este projeto foi apresentado pela Câmara Municipal de Lisboa e pela Santa Casa da Misericórdia, no dia 2 de fevereiro, e o seu princípio fundamental, ou a sua génese, é a intensa colaboração e articulação na resposta e no foco à população com mais de 65 anos. Este programa conta com a colaboração de outros parceiros de elevada importância, como o Instituto de Segurança Social, a Administração Regional de Saúde de Lisboa e Vale do Tejo, a Polícia de Segurança Pública e a Rede Social de Lisboa.

Podemos avançar que os primeiros sete meses de implementação têm originado resultados muito positivos, quer a nível do desenvolvimento do programa quer do compromisso e partilha, sendo esta uma convicção validada pelos ecos que vamos recebendo dos parceiros.

  1. Que tipo de respostas é que o programa “Lisboa, Cidade de Todas as Idades” oferece e que irão permitir a quebra do isolamento e a melhoria da qualidade de vida das pessoas com mais idade?

O programa “Lisboa, Cidade de Todas as Idades” é muito ambicioso e tem como princípios e eixos estratégicos a “Vida Ativa”, a “Vida Autónoma” e a “Vida Apoiada”. Cada um deles agrega várias medidas. Por exemplo, a “Vida Ativa” integra o projeto Lisboa +55; o Longevidade, Cidadania e Participação; as Marchas Populares; e a iniciativa Beleza não tem Idade. Já a “Vida Autónoma” integra o Serviço de Teleassistência; o Espaço InterAge; o Serviço de Apoio Domiciliário; e o Serviço de Apoio aos Cuidadores Informais. Por fim, a “Vida Apoiada” agrega as Estruturas Residências para Idosos e Cuidados Continuados – Intergeracionais; e Equipas de Cuidados Continuados Integrados.

As medidas associadas a cada um destes eixos incluem a prestação de serviços e atividades com vista à melhoria da qualidade de vida e bem-estar da população com mais de 65 anos, à manutenção e promoção de autonomia e ao apoio qualificado. Pretende-se, assim, a criação de condições para a promoção da vida ativa deste grupo populacional, ao nível cultural, desportivo, formativo e de intervenção cívica.

Uma das medidas incluídas no programa é o projeto “RADAR”, que é uma das nossas grandes apostas. Trata-se de um projeto de vanguarda no país, que pretende sinalizar a população da cidade com mais de 65 anos e identificar as suas necessidades, de modo a detetar precocemente situações de risco e agilizar uma intervenção ajustada a cada situação.

Todos sabemos que há muito a fazer e que o contributo de todos é essencial para o reconhecimento do potencial das pessoas de idade avançada, quer pelo papel que desempenham na vida da cidade quer pela importância de todo o património que nos legaram e de que beneficiamos.

A prioridade deste programa tem sobretudo que ver, mais do que com a disponibilização de novos serviços, com uma ampla aposta na requalificação e diversificação das respostas, dotando-as de uma nova e renovada abordagem, que vá ao encontro das expetativas da população com mais de 65 anos e das suas distintas especificidades.

A título de exemplo, refira-se a mudança de paradigma dos Centros de Dia, que vão passar a ser Centros InterAge (espaços intergeracionais, abertos à comunidade) ou o serviço de Teleassistência.

Sublinhe-se que o programa “Lisboa, Cidade de Todas as Idades” visa o rompimento com o anterior paradigma da institucionalização, reconhecendo o valor da pessoa na sua especificidade e diferença e estimulando a tomada de posição no que diz respeito à Autonomia e à Participação.

  1. Sendo a SCML uma grande conhecedora da realidade de Lisboa, com trabalho de referência no apoio a milhares de lisboetas, é possível identificar em números a obra da SCML na área do envelhecimento e dos cuidados com os mais velhos?

Antes de responder, um parêntesis para dizer que a cidade de Lisboa apresenta o número mais significativo de pessoas com mais de 65 anos. Este grupo etário representa mais de 132 mil pessoas, o que faz que Lisboa seja a cidade mais envelhecida do país. Trata-se, pois, de uma realidade que temos bem presente e que se reflete em várias das nossas respostas.

Voltando ao programa “Lisboa, Cidade de Todas as Idades”, ele prevê um investimento de mais de 100 milhões de euros, em respostas a executar nos próximos oito anos.

Entre as respostas sociais que vão ser requalificadas, inovadas, diversificadas e criadas, está a construção, até 2021, de oito equipamentos com valência de Estrutura Residencial para Pessoas Idosas (ERPI) e Cuidados Continuados.

No que diz respeito à obra da SCML nesta área, ela é bastante vasta. Por exemplo, em Serviço de Apoio Domiciliário assistimos a 2870 pessoas, das quais 727 em horário alargado; na Teleassistência já auxiliámos 588 pessoas e pretendemos que este seja um serviço gratuito para as pessoas com mais de 75 anos, que vivam sozinhas ou acompanhadas por pessoas da mesma faixa etária (uma realidade que representa cerca de 85 mil na cidade de Lisboa).

A SCML é também responsável pela gestão de 21 Centros de Dia com capacidade para mais de 1600 pessoas, com mais de 65 anos, correspondendo a cerca de 1/3 da resposta existente na cidade.

Estamos, também, a trabalhar no desenvolvimento de um serviço de Apoio a Cuidadores Informais, abrangendo 6000 cuidadores em ações de formação e sensibilização, que pretendemos que seja ampliado quer numa fonte de suporte quer de partilha de conhecimento.

  1. Muito ainda haverá a fazer. O trabalho nunca se esgota. Têm outros planos, novas áreas de intervenção ou novos projetos para implementar no curto e médio prazo?

Os projetos, numa instituição como a Santa Casa, nunca se esgotam. O dinamismo social e a exigência crescente de qualidade obrigam a uma atenção permanente a novas soluções. E é isso que procuraremos fazer: melhorar, aprofundar e ir mais longe nos domínios de intervenção tradicional e patrimonial da Santa Casa, contribuir para o preenchimento de lacunas na saúde e na ação social e continuar o percurso de reabilitação e edificação do património imobiliário e cultural, assim como acentuar a oferta acessível de bens e serviços culturais na cidade e no país.

  1. Foi presidente do Instituto da Segurança Social e integrou o Observatório da Segurança Social em Genebra. Assumiu a provedoria da SCML, cargo que ocupa há menos de um ano, sendo sem dúvida mais um grande desafio profissional. Que balanço faz destes primeiros meses à frente da SCML? Como vê o futuro à frente desta instituição?

É ainda muito cedo para fazer um balanço da minha atuação como provedor. Posso, no entanto, afirmar que se trata de um desafio profissional único. Tenho procurado, antes de mais, contribuir para o reforço de áreas centrais de atividade da SCML, calibrando as prioridades, com ênfase no trabalho de planeamento, e sublinhando a centralidade de soluções sustentáveis sob todos os pontos de vista e definindo áreas de desenvolvimento e crescimento.

  1. As lideranças e as instituições guiam-se por objetivos. Um dia, quando deixar este cargo e olhar para o seu contributo, para a “sua pegada” na SCML, que objetivos gostava de ver concretizados?

As lideranças, numa organização como a SCML, devem entender-se, acima de tudo, como instrumentos de objetivos coletivos. Cabe a quem tem responsabilidades transitórias assegurar a sustentabilidade das decisões e ter a consciência permanente do primado do interesse dos cidadãos. Essa deve ser a medida da avaliação e o referencial de qualquer “pegada”.

Importante também é assegurar que a obra para a qual contribuímos honre a história e o passado e se projete para um futuro de solidez e qualidade.

Temos, por isso, de ser capazes de aprofundar o património técnico e científico da SCML, avançar em caminhos novos e inovadores, sem perder nunca de vista o interesse central de cada cidadão e da comunidade.

Texto: Edição do Impulso+ de dia 04 de Outubro do Jornal Público

Imagem: SCML – Provedor Edmundo Martinho

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